terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Três ministros, três eras, uma mulher

Tércio Amaral DIARIO DE PERNAMBUCO
Publicação: 07/12/2014 15:11 Atualização:

Dona do Carmo vê terceira geração da sua família chegar a um posto ministerial. Foto: Divulgação
Dona do Carmo vê terceira geração da sua família chegar a um posto ministerial. Foto: Divulgação
























“Eu queria muito agradecer a sua ligação, mas eu sou muito tímida para dar entrevistas”, disse, por telefone, com uma voz suave, sem qualquer alteração no tom. O primeiro contato aconteceu durante a última semana do mês de novembro, quando um dos seus filhos, o senador Armando Monteiro Neto (PTB), tinha acabado de se reunir com a presidente Dilma Rousseff (PT), no Palácio do Planalto, com a possibilidade de assumir o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, fato que foi concretizado no dia 1º de dezembro. Com a nomeação, a mudança de posição. Uma entrevista foi agendada por e-mail. Filha, mulher, e agora, mãe de um ministro de estado, Maria do Carmo Magalhães de Queiroz Monteiro, de 88 anos, é a única pernambucana a ter convivido dentro de casa com três ministros da República em fases distintas da nossa história: Era Vargas (1930-1945), República Populista (1945-1964) e a Nova República (1985). 

De uma discrição absoluta, Dona do Carmo, como é conhecida, não gosta de dar entrevistas ou posar para fotos. Seu primeiro contato com o “poder” aconteceu ainda na década de 1930, quando seu pai, o ex-governador de Pernambuco Agamemnon Magalhães (1893-1952), assumiu o Ministério do Trabalho, em 1934, na Era Vargas. A capital do Brasil ainda era o Rio de Janeiro e sua formação no Sacre Couer de Jesus (Escola do Sagrado Coração de Jesus, numa tradução livre) na mesma cidade imprimiram o perfil de sua personalidade: senso de organização aguçado e gestual à francesa. Tanto é que, nesta eleição, quando seu filho disputou o governo de Pernambuco, declinou todos os convites para gravar depoimentos ao guia eleitoral. A recusa, porém, não impediu sua presença em caminhadas de Armando. Ela quase sempre não subia no palanque, observando os discursos de longe, como se conhecesse cada passo de um enredo. 

Direitos trabalhistas

“Papai foi convidado para ser ministro exatamente por sua atuação na Constituinte de 1934 defendendo os direitos trabalhistas. No Ministério, criou a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), a Previdência Social, fundou o Iapetec, entre outros, e reorganizou os sindicatos. Realmente, foi um marco para a vida dos trabalhadores brasileiros”, informou. Seu pai também foi ministro da Justiça, em 1945, também no governo de Vargas e seu retorno ao “mundo ministerial” aconteceu com a nomeação de seu marido, o empresário Armando Monteiro Filho, em 1961, ao Ministério da Agricultura, no governo do presidente João Goulart (1919-1976). 

“O período foi turbulento, sim, como muitos outros, a exemplo dos golpes de 1937 e 1945 e, em 1961, da renúncia de Jânio. Porém, desde cedo, fomos criadas por nossos pais sendo informadas, participando dos acontecimentos e preparadas para encarar os fatos com a tranquilidade possível”, relata. Da época em Brasília, lembra do Anteprojeto da Reforma Agrária, o Código Florestal e o Fundo Agropecuário. Na década de 1960, participou da criação da “Casa do Candango”, movimento de apoio aos operários construtores de Brasília. “Tive o privilégio de participar de todos os momentos políticos importantes do meu país durante toda a minha longa vida”, orgulha-se. Agora, ela encara uma nova fase: ser mãe de um ministro.

Saiba mais

Maria do Carmo Magalhães de Queiroz Monteiro é filha mais nova do ex-governador de Pernambuco Agamemnon Magalhães e de Antonieta Bezerra Cavalcanti Magalhães

Seu pai, além de ministro de Getulio Vargas, em duas ocasiões, governou o estado de Pernambuco em dois momentos: de 1937 a 1945, como interventor federal, e de 1951 a 1952, como governador eleito

Do casamento com Armando Monteiro Filho, teve cinco filhos: Maria Lecticia, Armando Neto, Sérgio (falecido aos 15 anos), Eduardo e Horácio. Tem oito netos e duas bisnetas

O seu marido assumiu o Ministério da Agricultura no governo João Goulart, mas foi nomeado pelo ntão primeiro-ministro Tancredo Neves (1910-1985). A pasta era estratégica em tempos de movimentos que a agitavam o setor, como as Ligas Camponesas 

Seu filho, o senador Armando Monteiro Neto assume o Ministério do Desenvolvimento em plena crise do governo petista com o setor industrial, que reclama dos “gargalos” em áreas como infraestrutura e carga tributária

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