segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Policiais do Rio não têm tratamento psicológico adequado, diz pesquisadora


Durante dois dias, um policial militar foi visto várias vezes chorando pelos cantos, chutando portas, esmurrando paredes ou jogando jornais para o alto. A reação explosiva e descontrolada, segundo contou um colega dele ao G1, começou no dia seguinte ao enterro de um dos ocupantes do helicóptero que foi derrubado a tiros por traficantes no dia 17 de outubro, no Morro dos Macacos, na Zona Norte do Rio.

“Todos nós sentimos, somos humanos, mas há quem não consiga se conter e queira botar a revolta para fora. É uma pessoa que precisa de atenção psicológica, como qualquer um”, ressaltA professora Edinilsa Ramos de Souza, pesquisadora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/ENSP/Fiocruz), que realizou em equipe um estudo sobre as condições de trabalho, saúde e qualidade de vida dos policiais civis e militares do Rio, concorda. a o colega, que também se queixa de várias noites de insônia e irritação. “Os agentes de segurança pública têm que fazer frente à criminalidade crescente e fortemente armada. Esse episódio do helicóptero é um exemplo. Eles estão passando por uma pressão grande. São cobrados para dar uma resposta à sociedade. São eles que se expõem a esses riscos. E, muitas vezes, acabam lesados, feridos, incapacitados ou perdem a própria vida”, afirma.

Segundo ela, o serviço de saúde que as polícias Civil e Militar oferecem não atende às necessidades dos integrantes das instituições. “É muito pouco para atender um efetivo tão grande. É um atendimento deficiente”, diz a pesquisadora, que entrevistou policiais em momentos de crise.“Eles reclamam muito do estresse provocado pelos riscos a que são submetidos. Mas, também, da falta de reconhecimento, da sociedade e da instituição, salários baixos etc. Eles se ressentem de tudo isso. E são fatores que afetam o desempenho profissional”, aponta.



"É preciso considerar que a vitimização de policiais militares é maior do que a da população do Rio", acentua a pesquisadora.


Segundo o presidente da Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar, Wanderley Ribeiro, “não existe um acompanhamento psicológico de policiais envolvidos em casos mais extremos”.

Falta de assistência permanente

“Eles são treinados para o combate, confrontos armados, mas numa tragédia como essa, do helicóptero, em que viram de perto a morte dos companheiros, precisam ter uma atenção para que recuperem o controle e a tranquilidade para o trabalho. Mas, infelizmente, a corporação não se preocupa com isso, apenas com a imagem da instituição”, afirma.

“Falta um programa permanente de assistência psicológica. O que eles criaram é um quadro de oficiais psicólogos que tratam o paciente como subordinado e não como uma pessoa que precisa de ajuda”, acrescenta Ribeiro.

O Sindicato dos Policiais Civis do Estado do Rio de Janeiro (Sinpol) também aponta falhas no atendimento psicológico oferecido aos agentes.

“O serviço de assistência social para o policial que precisa de apoio não tem uma cultura de avaliação do quadro do paciente. Muitos colegas se perdem pelo estresse constante, acabam se jogando no vício do álcool ou cometendo até suicídio. Conheço vários casos”, revela o comissário Franklin Bertholdo, 62 anos, 36 deles dedicados à vida policial. Ele faz parte da diretoria do sindicato.

PM explica projeto

Em resposta às críticas, a assessoria da Polícia Militar informou que a corporação possui o Projeto Renascer, que visa a recuperação de policiais militares e seus dependentes que possuam algum tipo de compulsão, seja ela droga, álcool, sexo ou mesmo jogo.

A nota diz ainda que o serviço conta ainda com um Programa de Assistência Psicológica para PMs envolvidos em "Ocorrências com Potencial de Risco de Estresse Pós-Traumático".

A assessoria da Polícia Civil não respondeu ao G1 até a publicação da matéria.

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